sexta-feira, 12 junho , 2026

Tubaronense na Holanda: ‘Muitos não acreditavam, pensavam ser exagero, mas vai como um tsunami’

A tubaronense Márcia Larroid Ghisi, que reside fora do Brasil, a exemplo de milhões de pessoas no mundo, também teve sua vida transformada após a pandemia do coronavírus. DJ e programadora de música para eventos, está afastada de seu público, onde costumava ter contato frequente, e isolada.

Sensibilizada, Márcia conta como está a situação onde mora, em Zaandam, na Holanda. “Quero contribuir com essas informações para alertar o pessoal do Sul do Brasil”, ressalta a tubaronense, que tem sua família em Santa Catarina, no Brasil. Sua mãe Cida Ghisi e seu irmão Leonardo moram em Tubarão, e sua irmã Cláudia em Florianópolis.

“A Holanda entra em outro ritmo, creio que as pessoas começam a se acostumar mais com a situação após o pânico inicial. Hoje, chegamos a quase 3 mil surtos em um país pequeno com quase 18 milhões de habitantes. O surto iniciou na época do Carnaval aqui, comemorado no sul da Holanda. Lá foi o primeiro caso, em 27 de fevereiro. No início são poucos, mas como o vírus se propaga exponencialmente, em três semanas passou de 1 caso a 3 mil”, relata.

Devido ao seu trabalho, a tubaronense costumava viajar bastante. “Estive em Napoli antes do problema existir lá, mas já dava para notar o nível de controle no aeroporto e a tensão no ar, foi também a primeira vez que vi pessoas usando máscaras no voo e no aeroporto. Isto foi em 15 de fevereiro e, quando voltei para Holanda, comecei a ler muito a respeito e a preparar tudo em casa no caso de quarentena”.

Ela lembra que a ficha caiu na população quando o primeiro-ministro impôs as primeiras restrições em 12 de marco. “Daí foi uma corrida aos supermercados para estocar alimentos. Antes disso muitos já tinham comprado gel. Ainda bem que eu já tinha feito um estoque com comida e produtos para desinfetar com duas semanas de antecedência”.

Segundo a DJ, os supermercados estão com algumas prateleiras vazias, embora tenham bastante estoque. Porém, não dá tempo de transportar do depósito ao supermercado. Logo que as mercadorias chegam, as pessoas compram os estoques. “Mas isto vale mais para alimentos não perecíveis, já que carne, verduras, frutas, ainda encontramos bastante, ainda bem”, completa.

No início foram vetados os eventos com mais de 100 pessoas e clubes foram fechados. Em seguida, as restrições ficaram mais duras, com o cancelamento de todos os eventos e fechamento de bares, restaurantes, cinemas, academias, escolas e universidades.

Recados da tubaronense!
“No momento ninguém sabe o tempo que tudo isso ficará assim e quanto vai demorar para diminuir o nível de contágio. Há uma projeção de que pode levar meses, até um ano, dependendo de como todos nós reagirmos agora. Então temos que fazer o máximo possível para evitar a propagação do vírus”.

“Tudo se desenvolveu muito rápido aqui. No início, muitos não acreditavam e pensava que era exagero ou pânico de alguns. Mas vai tão rápido, como se fosse um tsunami. Estamos na quinta semana de casos confirmados na Holanda. Por isso é realmente muito importante que as pessoas se resguardem, fiquem em casa. Não há tempo para esperar, temos que nos adaptar a essa nova situação, a vida de muitas pessoas depende disso”.

“As pessoas respeitam a decisão do governo, mas é notável que muitos ainda não se deram conta da seriedade da situação”
“Tivemos há cerca de uma semana dois dias com mais sol, parecia Primavera e ainda estamos no Inverno aqui, e muitos foram para os parques. Ainda bem que esfriou novamente, assim ficam mais em casa. Com o tempo, mais pessoas vão se dando conta do problema e não podemos perder tempo crucial no combate a este vírus”, alerta.

Márcia ressalta que ainda não há a mesma situação como na Itália, de lockdown completo. Pode-se sair de casa, mas o governo impõe só em caso de necessidade. “Todos trabalham de casa o máximo possível. Somente saio de casa para minha caminhada diária, o que faço há anos, e de vez em quando para ir ao supermercado”.

A crise nos hospitais
Os hospitais do Sul da Holanda, onde iniciou o surto, já começam a passar da capacidade, por isso começaram a transferir pacientes com casos que não são de coronavírus para outros hospitais no Norte do país. Inclusive chamaram médicos e enfermeiros pensionados para retornarem ao trabalho. “Se isso sair do controle, daí é possível que o governo resolva optar por medidas mais duras como na Itália”, teme a DJ.

Os impactos econômicos
A economia está sofrendo muito e o governo estabeleceu planos para ajudar temporariamente as empresas para amenizar os impactos negativos. “São as implicações financeiras que isso já está causando a todos, cada um de nós, pois há uma recessão à espreita no momento”, lamenta a tubaronense (Leia artigo abaixo).

Márcia esteve ano passado no Brasil
A tubaronense vive na Holanda desde de setembro de 1998, antes disso morou na Inglaterra. Mas, quando é possível, não deixa de visitar os parentes e amigos em Santa Catarina. Ano passado esteve em Florianópolis e Tubarão, onde reside sua família.

Ela possui dois projetos como DJ: Back to Mars e Marciana, mas por enquanto o público pode acompanhar seu trabalho somente pela internet.
web: www.backtomars.net

Números na Holanda
Conforme últimos dados divulgados, a Holanda teve 132 novas mortes esta semana e subiu para 771. Houve mais 1.104 infecções pela doença, levando o número de infectados no país para 10.866.

ARTIGO
Responsabilidade Social

Márcia Larroid Ghisi
Zaandam, Holanda

*Escrito um pouco antes do governo introduzir as restrições atuais

Depois de ler muito nas últimas semanas sobre o vírus, aqui é onde me encontro: “Precisamos ter um senso de responsabilidade social” … “e evitar percepções de risco extremo (pânico e demissão).”

Parece que essas são tendências humanas, quase como que modos de piloto automático que adotamos ao lidar com situações de emergência. Enquanto algumas pessoas ficam cheias de medo e pânico, outras assumem uma postura de negação e a descartam como se fosse “apenas uma gripe”. Ambos os extremos não estão ajudando a situação.

Em vez disso, podemos observar a rapidez com que o vírus se espalha e a porcentagem de casos graves (cerca de 20%) e o tempo médio que leva para as pessoas se recuperarem (pelo menos 14 dias para casos leves e muito mais para casos graves), então é apenas uma questão de matemática, e você pode ver a inevitabilidade disso devastar a capacidade médica, e esse é um dos principais problemas.

Além disso, um estudo recente mostra que, em média, as pessoas já são contagiosas após dois dias de contração do vírus e desenvolvem sintomas principalmente após cinco dias (ou até 14 dias), permanecendo contagiosas por quase três semanas. Embora ninguém ainda tenha certeza, isso indica que a abordagem atual de impor certas restrições apenas para pessoas que apresentam sintomas pode ser falha, pois pessoas já podem estar contaminando as outras antes de apresentarem algum sintoma. É como o elefante na sala que governos e pessoas estão tentando evitar. E, por mais polêmico que isso possa parecer, parece que o isolamento social pode ser a melhor opção no momento.

O objetivo no momento é que todos agora ajudem ativamente a diminuir a velocidade da propagação e diminuir o pico do surto. Isso pode manter a capacidade médica sob controle,
para que eles possam permanecer dentro do seu nível operacional, o que pode ser crucial para os doentes e os mais velhos da população. Sem mencionar as implicações financeiras que isso já está causando a todos e cada um de nós, pois há uma recessão à espreita no momento.

E agora, todos nós sabemos como podemos diminuir a taxa de propagação (lave as mãos, não toque no rosto, não aperte as mãos ou beije outra pessoa, evite tocar em superfícies, mantenha distância etc.).

Não posso dizer quantas pessoas pareciam chateadas comigo recentemente quando eu não queria cumprimentá-las com o aperto de mão habitual ou um beijo no rosto, mas, na verdade, isto é necessário.

É importante não tomar esta situação levemente, mas também não entrar em pânico. O melhor é seguir o caminho do meio, ser sensível e verificar os fatos. Mais importante, veja que o que cada um de nós faz individualmente pode contribuir na disseminação ou contenção do surto. E que, ao optar por ser cuidadoso, você está tendo um ato de compaixão em relação à profissão médica, aos doentes e aos idosos, além de garantir que a recuperação de uma possível recessão possa ocorrer mais rapidamente.

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